A Epopeia do Litoral: Colonização, Ocupação e a História Política da Costa Paranaense
Compreender a história política e a formação do Paraná exige, obrigatoriamente, lançar âncoras em seu litoral. Muito antes de Curitiba centralizar as decisões administrativas da província, o poder, a economia e a identidade paranaense nasceram nas águas calmas e profundas de suas baías. O litoral do Paraná não é apenas uma faixa de terra que encontra o Oceano Atlântico; é o útero histórico do estado, palco de disputas coloniais, ciclos de extração predatória, emancipações heróicas e de uma linhagem de personalidades políticas que desenharam o destino da região e do próprio Brasil.
1. O Berço de Ouro e Cobre: A Ocupação Inicial e a Fundação de Paranaguá
A história da ocupação europeia no litoral paranaense começa no início do século XVII, movida pelo mito do “Eldorado”. Rumores de que as montanhas da Serra do Mar escondiam jazidas de ouro e prata atraíram exploradores paulistas e vicentinos para a região da Baía de Paranaguá. Por volta de 1640, figuras como Gabriel de Lara, o “Capitão-Mor”, estabeleceram-se na Ilha da Cotinga e, posteriormente, na margem esquerda do Rio Itiberê, fundando o povoado que viria a ser a Vila de Nossa Senhora do Rosário de Paranaguá, oficializada em 1648.
Gabriel de Lara personifica o primeiro ciclo de poder político na região. Como representante da Coroa Portuguesa, ele acumulava funções militares, administrativas e judiciais. Sob seu comando, o litoral tornou-se um entreposto estratégico para a expansão territorial e para o controle do tráfego marítimo no Sul do Brasil Colônia.
Paralelamente, a ocupação avançava para o interior das baías. Morretes e Antonina começaram a surgir como pontos de pouso e capelas jesuíticas, servindo de apoio para os tropeiros e mineradores que tentavam romper a imponente barreira da Serra do Mar rumo ao Primeiro Planalto. Essa primeira configuração geopolítica transformou Paranaguá na “Cidade Mãe” do Paraná, estabelecendo uma elite local baseada na posse de terras e na exploração do trabalho escravizado e indígena.

2. O Ciclo da Erva-Mate e a Luta pela Emancipação Política
Durante quase dois séculos, o litoral paranaense permaneceu sob a tutela administrativa da Capitania de São Paulo. No entanto, a distância geográfica e o descaso paulista em relação às demandas locais geraram um profundo sentimento de isolamento e revolta na elite litorânea. O cenário começou a mudar drasticamente no século XIX com a explosão do ciclo da erva-mate e da madeira.
O engenho de erva-mate transformou Antonina e Morretes em potências econômicas. O ouro verde do planalto descia a serra lombo de mula para ser processado e exportado pelos portos de Antonina e Paranaguá. Esse boom econômico deu musculatura financeira para que os barões do mate exigissem autonomia política.
Nesse contexto, surge a figura de Bento Munhoz da Rocha (o patriarca da linhagem política), além de intelectuais e políticos como Barão do Serro Azul (Ildefonso Pereira Correia). Embora o Barão operasse fortemente em Curitiba, seus laços e negócios no litoral eram vitais para o escoamento de sua produção. A pressão das lideranças litorâneas e da capital culminou na histórica Emancipação Política do Paraná, em 19 de dezembro de 1853. A criação da Província do Paraná descentralizou o poder de São Paulo e colocou Paranaguá definitivamente como o portal de entrada do novo estado, consolidando sua relevância na corte imperial de Dom Pedro II.

3. O Século XX e as Dinastias Políticas do Litoral
Com a chegada da República, a política do litoral paranaense profissionalizou-se e passou a ser dominada por oligarquias locais e lideranças ligadas à atividade aduaneira, sindical e portuária. O poder político já não vinha apenas da terra, mas do controle das engrenagens logísticas do Porto de Paranaguá.
Uma das figuras mais proeminentes do século XX foi Bento Munhoz da Rocha Neto. Engenheiro, sociólogo e político de linhagem litorânea, Bento governou o Paraná entre 1951 e 1955. Seu governo foi marcado por uma profunda modernização da infraestrutura do estado, incluindo investimentos massivos no Porto de Paranaguá e a idealização da Biblioteca Pública do Paraná. Bento Munhoz trouxe para o cenário estadual o pragmatismo e a visão estratégica que herdou das discussões sobre o desenvolvimento do litoral.
Outra personalidade indispensável para entender o tabuleiro político regional é Roque Vergílio (conhecido popularmente como “Roque do Porto”), além de fortes lideranças sindicais de estivadores e ensacadores que, durante meados do século XX, transformaram Paranaguá em um dos polos mais combativos do sindicalismo de esquerda no Sul do Brasil. A queda e ascensão de prefeitos locais em Paranaguá, Antonina e Guaratuba refletiam diretamente as tensões nacionais entre o nacional-desenvolvimentismo e as forças conservadoras ligadas ao comércio exterior.

4. O Tabuleiro Contemporâneo: Da Redemocratização às Novas Lideranças
A redemocratização do Brasil, a partir de 1985, pulverizou o poder político no litoral e redesenhou o foco geopolítico da região. O crescimento demográfico e a emancipação de novos municípios — como Pontal do Paraná (emancipado de Paranaguá em 1995) e Matinhos (emancipado em 1967) — criaram novas forças políticas focadas não mais no porto, mas na economia do turismo e do desenvolvimento imobiliário.
Nesse novo cenário, o litoral viu surgir disputas acirradas pelo comando das prefeituras. Lideranças como José Baka Filho, que governou Paranaguá por dois mandatos no início dos anos 2000, e a tradicional família Roque (com Mário Roque e seus herdeiros políticos), moldaram a dinâmica eleitoral através de um forte apelo popular e foco na infraestrutura urbana local.
Mais ao sul da costa, em Guaratuba, a política tradicional manteve-se firme sob a influência de clãs familiares locais, como a família Justus (com Nelson Justus e Roberto Justus), que há décadas mantém forte representatividade na Assembleia Legislativa do Paraná (ALEP) e no comando do executivo municipal. Essas forças políticas contemporâneas equilibram-se na corda bamba entre as demandas urgentes por emprego na baixa temporada e a dependência crônica do apoio financeiro e político do Palácio Iguaçu, em Curitiba.

Conclusão: O Desafio de uma Voz Unificada para a Costa
A história política do litoral do Paraná revela um padrão de fragmentação. Embora Paranaguá guarde o peso histórico de ser a “Cidade Mãe” e o motor portuário, os balneários do Sul e as comunidades isoladas do Norte (como Guaraqueçaba) historicamente operaram em órbitas políticas distintas.
O grande desafio das lideranças litorâneas contemporâneas é construir uma agenda política unificada. Superar o isolamento que outrora motivou a emancipação de 1853 significa, hoje, criar blocos de articulação regional que consigam dialogar de igual para igual com o agronegócio do Oeste e o poder industrial da Região Metropolitana de Curitiba. A história provou que o Paraná só avança quando o seu litoral prospera; resgatar a memória política dessa costa é o primeiro passo para que as “Ondas Médias” da comunicação voltem a sintonizar a força do povo caiçara nos rumos do estado.
