A Mercantilização da Neurodiversidade: Entre o Compromisso de Gestão e o Estelionato Eleitoral

O cenário político brasileiro atravessa uma metamorfose perigosa, onde pautas identitárias e condições de saúde deixaram de ser exclusivamente questões de direitos humanos para se tornarem ativos de alta liquidez no mercado de votos. Entre esses ativos, a neurodivergência — englobando o Transtorno do Espectro Autista (TEA), o TDAH, a dislexia e outras variações cognitivas — emergiu como o novo “filão” de promessas eleitorais. Contudo, por trás dos laços coloridos e das peças de quebra-cabeça estampadas em santinhos, reside uma abissal distância entre a retórica da inclusão e a realidade da gestão pública, especialmente quando observamos a dinâmica entre o governo federal, o estado do Paraná e a realidade microscópica de municípios como Matinhos.

Para entender esse fenômeno, é preciso olhar para os números. De acordo com o Center for Disease Control and Prevention (CDC), a prevalência do autismo tem saltado de 1 em cada 150 crianças no ano 2000 para 1 em cada 36 em dados recentes. No Brasil, embora o Censo 2022 do IBGE tenha enfrentado desafios metodológicos para mapear com precisão toda a população neurodivergente, estimativas baseadas na prevalência global sugerem que existam entre 2 e 6 milhões de autistas no país. Este contingente, somado aos seus familiares diretos (pais, avós, irmãos), forma um bloco eleitoral colossal e desesperado por serviços básicos que o Estado sistematicamente nega.

A Anatomia do Candidato “Cata-Votos”

O oportunismo político se manifesta de forma cíclica. O “cata-voto” neurodivergente é aquele que descobre a causa apenas no ano de pleito. Ele utiliza uma estética de empatia performativa, focando em leis meramente simbólicas. É o vereador ou deputado que propõe o “Dia Municipal de Conscientização” ou a iluminação de prédios públicos em azul, mas que vota contra dotações orçamentárias que garantiriam mediadores escolares ou centros de terapia ocupacional.

A característica fundamental do político interesseiro é o foco no símbolo em detrimento da estrutura. Enquanto o autista e sua família precisam de fonoaudiólogos, neurologistas e psicólogos com abordagem baseada em evidências (como ABA ou Denver), o candidato oferece o “acolhimento” de um tapinha nas costas e uma foto para o Instagram. Em Matinhos e no litoral paranaense, essa prática é ainda mais cruel devido à escassez histórica de centros de referência, forçando famílias a deslocamentos exaustivos até Curitiba para obterem um diagnóstico ou tratamento contínuo.

Gestão Pública e a Realidade Econômica no Paraná

O estado do Paraná tem tentado se posicionar como pioneiro com a Lei Estadual nº 17.555/2013 e o programa “Estratégia Saúde da Família”, mas a execução na ponta — no município — frequentemente falha. A economia da neurodivergência é um fator que o gestor sério deve considerar: uma criança neurodivergente sem suporte adequado torna-se um adulto com baixa inserção no mercado de trabalho e alta dependência de benefícios assistenciais (como o BPC).

Investir em centros de atendimento precoce em Matinhos não é apenas uma questão de benevolência, é eficiência fiscal. Dados do Autism Speaks e estudos de economia da saúde indicam que a intervenção precoce pode reduzir o custo de cuidado ao longo da vida de um indivíduo em até 60%. Portanto, quando um candidato ignora a construção de infraestrutura técnica e foca apenas em eventos de “entrega de carteirinhas”, ele está cometendo um crime de gestão, perpetuando a dependência econômica daquela família em relação ao assistencialismo estatal.

O Abismo Educacional e o Papel do Legislativo

A inclusão escolar é o principal campo de batalha. No Brasil, a Lei Berenice Piana (12.764/12) garante o direito a um mediador ou acompanhante especializado. No entanto, o que vemos em muitas prefeituras é a contratação de estagiários sem formação pedagógica mínima para cumprir tabela. O interesse real de um candidato se mede pelo seu plano de carreira para profissionais da educação especial e pela dotação específica no orçamento municipal para a adaptação de currículos.

  • Sinal de Alerta: Candidatos que prometem “cura” ou “tratamentos alternativos” sem base científica.
  • Sinal de Compromisso: Candidatos que apresentam propostas para a criação de Centros de Atendimento Especializado (CAEs) com equipes multidisciplinares concursadas.
  • A Falha de Matinhos: A dependência de repasses estaduais sem uma política própria de fixação de especialistas na região litorânea.

Neurodivergência e o Mercado de Trabalho: Além da Cota

A gestão moderna exige que olhemos para a neurodivergência sob a ótica do capital humano. Empresas globais como SAP, Microsoft e JPMorgan já possuem programas de contratação específicos para neurodivergentes, reconhecendo habilidades superiores em padrão de reconhecimento, atenção aos detalhes e pensamento lógico.

No contexto brasileiro, a Lei de Cotas (8.213/91) ainda é vista como um fardo por muitos empresários, em grande parte pela falta de fomento público para o treinamento dessas empresas. O político que realmente tem interesse na causa não foca apenas na assistência, mas na autonomia econômica. No Paraná, um estado com forte pujança agroindustrial e de serviços, há um vácuo de políticas que conectem o jovem neurodivergente ao primeiro emprego adaptado. O “cata-voto” não fala sobre emprego; ele fala sobre caridade.

O Papel das Associações e a Captura Política

Um fenômeno sociológico preocupante é a captura de associações de pais por figuras políticas. Muitas vezes, entidades que deveriam ser fiscalizadoras do poder público tornam-se “puxadinhos” de gabinetes parlamentares em troca de pequenas emendas ou favores burocráticos. Isso enfraquece a luta coletiva. O eleitor consciente deve questionar: a associação que apoia este candidato recebeu benefícios que de fato melhoraram a vida de todos, ou apenas serviram de palco para o político de turno?

A verdadeira autoridade no assunto vem de quem consulta a base de dados do Ministério da Saúde (DATASUS) e percebe o represamento de exames diagnósticos. No Paraná, o tempo de espera para um fechamento de laudo pelo SUS pode superar dois anos. Um candidato com interesse real apresenta metas quantificáveis para reduzir esse tempo; o oportunista apenas critica a fila sem propor a fonte de custeio para a solução.

A Ética da Representatividade: Nada Sobre Nós Sem Nós

O conceito “Nothing About Us Without Us” (Nada sobre nós sem nós) é o padrão ouro da política de inclusão moderna. Candidatos que se dizem defensores dos neurodivergentes, mas que não possuem neurodivergentes em suas equipes de assessoria ou coordenação de plano de governo, operam sob uma lógica colonialista. Eles falam pelo autista, mas não com o autista.

A neurodiversidade não é uma doença a ser curada pela política, mas uma característica da variabilidade humana que exige adaptação ambiental e social. Quando um candidato em Matinhos, por exemplo, ignora a acessibilidade sensorial em eventos públicos ou não propõe o treinamento da Guarda Municipal para abordagens a pessoas em crise sensorial, ele demonstra que seu interesse é puramente cosmético.

Perspectiva Global e Comparativos Necessários

Países como o Canadá e partes da União Europeia tratam a neurodivergência como uma questão de infraestrutura urbana e econômica. Lá, o debate não é se a pessoa deve ser incluída, mas como o ambiente deve ser modificado para não ser incapacitante. No Brasil, ainda estamos presos ao debate da “aceitação”, que é o estágio mais básico e inútil da política pública.

Estatisticamente, a exclusão de neurodivergentes custa ao PIB brasileiro bilhões de reais em produtividade perdida e sobrecarga dos sistemas de seguridade social. Portanto, a pauta é, antes de tudo, uma pauta de desenvolvimento econômico sustentável. Um estado como o Paraná, que se orgulha de sua modernidade, não pode se dar ao luxo de ter uma gestão que trata o autismo e o TDAH como “problemas de nicho”.

Conclusão: O Voto como Ferramenta de Filtro

O eleitor, especialmente o paranaense e o matinhense, precisa desenvolver um cinismo saudável diante das promessas eleitorais. A neurodivergência é complexa, multifacetada e exige soluções de longo prazo que não cabem em um mandato de quatro anos. O interesse real é silencioso, técnico e fundamentado em orçamento e evidência científica. O interesse “cata-voto” é ruidoso, colorido, iconográfico e termina no dia da apuração.

Ao analisar os candidatos nesta e nas próximas eleições, verifique se há propostas de criação de Centros de Referência, se há planos para a formação continuada de professores e se existe um compromisso real com a saúde mental. A neurodiversidade é a fronteira final da inclusão civilizatória. Não permitamos que ela seja reduzida a um simples adereço de campanha.

Gestão se faz com dados e empatia técnica; política se faz com compromisso geracional. O resto é apenas o velho populismo travestido de novas cores.

Buchi de Matinhos – Curioso e especulativo