Sentado em minha varanda em Matinhos, observando o movimento das ondas e o vaivém dos veranistas que começam a rarear com o fim da temporada, permito-me uma reflexão profunda. Cinquenta anos cobrindo a política e a economia deste estado e do mundo me deram uma perspectiva que os livros raramente oferecem: a de que o futuro não é um destino distante, mas algo que está sendo moldado agora, nas mãos de uma juventude que pulsa em ritmos que minha geração ainda tenta compreender. O tema que nos traz aqui hoje — as tendências políticas entre os jovens no mundo — não é apenas um tópico acadêmico; é a bússola que ditará se as próximas décadas serão de naufrágio ou de uma navegação serena em direção ao progresso.

O Despertar de uma Nova Era: A Reconfiguração das Ideologias
Para entendermos o que move o jovem de hoje, precisamos olhar para as raízes de sua insatisfação e de sua esperança. Vivemos o que muitos economistas chamam de “policrise”. Diferente da juventude dos anos 70, com a qual convivi no início da minha carreira, que lutava contra regimes autoritários claros, o jovem atual enfrenta inimigos mais difusos: a crise climática, a precarização do trabalho e uma desigualdade abismal que as redes sociais tornam dolorosamente visível a cada segundo. Politicamente, observamos uma tendência global de polarização que não poupa os mais novos. Se por um lado há um crescimento vigoroso de movimentos progressistas focados em pautas identitárias, justiça ambiental e direitos humanos, por outro, vemos uma parcela considerável da juventude sendo seduzida por discursos conservadores e nacionalistas, muitas vezes como resposta ao sentimento de abandono pelas instituições tradicionais.
As raízes econômicas desse fenômeno são profundas. O jovem de hoje é a primeira geração em muito tempo que corre o risco de ser financeiramente menos próspera que a de seus pais. O acesso à moradia tornou-se um sonho proibitivo em grandes centros, e a economia “gig” ou de plataformas transformou a estabilidade em uma relíquia do passado. Isso gera um terreno fértil para propostas políticas radicais. No hemisfério norte, vemos o ressurgimento do interesse pelo socialismo democrático; no sul global, uma busca por figuras que prometem ordem e desrupção do sistema. O que une esses polos é a percepção comum de que o status quo faliu. O jovem não quer apenas votar; ele quer transformar a estrutura do poder, usando a tecnologia como sua principal ferramenta de mobilização e denúncia.
Do Litoral à Capital: O Reflexo nas Terras Paranaenses
Mas como essa onda global quebra em nossas praias paranaenses? Como jornalista radicado em Matinhos, vejo o impacto direto na nossa juventude caiçara e nos estudantes que descem a serra. A política para o jovem do Litoral do Paraná hoje é indissociável da economia local. O porto de Paranaguá, o turismo em Matinhos e Guaratuba, e a preservação da nossa Mata Atlântica são os palcos onde essas tendências se manifestam. O jovem litorâneo está cada vez mais consciente de que as decisões tomadas em Brasília ou em Curitiba afetam o seu futuro no turismo sustentável ou na logística portuária. Há uma crescente demanda por representatividade: eles não querem mais ser apenas os herdeiros das capitanias políticas locais; eles buscam vozes que entendam a economia digital e a necessidade de inovação.
Em Curitiba, o cenário é de efervescência acadêmica e profissional. A capital, conhecida por seu planejamento urbano, agora enfrenta o desafio de integrar uma juventude que questiona a mobilidade, o custo de vida e a falta de espaços de lazer inclusivos. As relações sociais e profissionais foram transformadas pelo trabalho remoto e pela busca por propósito. O jovem curitibano e o litorâneo estão conectados pela mesma rede; eles compartilham memes, mas também compartilham indignações sobre a inflação dos alimentos nas prateleiras dos nossos supermercados. Essa conexão cria um novo tipo de capital social, onde as fronteiras geográficas entre o litoral e o planalto se diluem em prol de pautas comuns, como a segurança pública e a educação de qualidade. Profissionalmente, essa tendência política se traduz em uma busca por empresas que tenham responsabilidade social e ambiental (ESG), forçando o mercado paranaense a se adaptar ou perder seus melhores talentos.
Caminhos para o Futuro: Estratégias Práticas
Diante desse cenário complexo e em constante mutação, não basta apenas observar. É preciso agir com sabedoria. Baseado em evidências e na experiência de quem já viu muitas marés subirem e descerem, ofereço três conselhos fundamentais para lidarmos com essas tendências:
1. Fomento ao Letramento Digital e Político: Não podemos permitir que a juventude seja refém de algoritmos que alimentam o ódio e a desinformação. É urgente que as famílias, escolas e comunidades no Paraná promovam espaços de debate onde a verificação de fatos e o entendimento do funcionamento das instituições públicas sejam prioridade. O conhecimento é a única vacina contra o populismo barato que floresce nas sombras da ignorância digital.
2. Diálogo Intergeracional Ativo: Há um abismo que precisa ser transposto. Nós, os mais experientes, precisamos parar de rotular os jovens como “geração cristal”, enquanto os jovens precisam entender que a história oferece lições valiosas. Em nossas cidades, como Matinhos, isso significa criar fóruns de participação popular onde o entusiasmo do jovem e a prudência do idoso possam coexistir para planejar o desenvolvimento sustentável da nossa orla.
3. Incentivo ao Empreendedorismo com Consciência Social: A economia do futuro será moldada por quem souber aliar lucro com impacto positivo. Para o jovem paranaense, a estratégia prática é buscar formação técnica e superior que contemple a sustentabilidade. Apoiar pequenos negócios locais dirigidos por jovens pode revitalizar a economia do nosso Litoral, reduzindo a dependência da sazonalidade turística e criando uma rede de proteção econômica mais resiliente.
Um Olhar de Esperança Sobre o Horizonte
Ao longo destes 50 anos de jornalismo, vi governos passarem, moedas mudarem e tecnologias revolucionarem nossas vidas. No entanto, uma coisa permanece constante: a força vital da juventude. Embora as tendências políticas atuais possam parecer caóticas ou assustadoras para alguns, vejo nelas um sinal vital de que a sociedade não está anestesiada. O interesse dos jovens pela política, ainda que por caminhos não convencionais, é a prova de que o coração da democracia continua batendo, às vezes de forma acelerada, é verdade, mas com uma vontade inegável de vida.
O jovem de Matinhos, de Curitiba, do Brasil e do mundo está nos dizendo que o modelo atual precisa de ajustes urgentes. Eles estão pedindo passagem não por arrogância, mas por necessidade de sobrevivência. Que possamos estender a mão, oferecer o ombro e, principalmente, abrir o ouvido. O futuro que eles desejam construir — mais justo, verde e tecnológico — é o único porto seguro para todos nós. Que a brisa do mar que agora toca meu rosto leve essa mensagem de união e otimismo a cada leitor, lembrando-nos de que, apesar das tempestades políticas, o sol sempre volta a brilhar sobre o nosso Paraná.
Com carinho e esperança,
Buchi de Matinhos
Curioso e especulador
